A Amcham Brasil reuniu executivos e especialistas para debater o futuro da sustentabilidade no Fórum Sustentabilidade 2025, realizado no simbólico Museu do Ipiranga. O painel “Sustentabilidade Ambiental” destacou o contexto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e da aproximação da COP30, que ocorrerá em Belém (PA) ainda este ano.
Com mediação da jornalista Karla Spotorno, o debate reuniu a especialista em sustentabilidade Sonia Consiglio, SDG Pioneer pelo Pacto Global da ONU; Antônio Josino, diretor de Relações Governamentais e Sustentabilidade da Mosaic; e a diretora de reputação e sustentabilidade da JBS, Liège Vergili. Eles abordaram temas como governança climática, pressões regulatórias internacionais, o papel do setor agro na transição verde e os caminhos para integrar sustentabilidade à estratégia de negócio.
ODS até 2030: realismo, mas com avanços concretos
Sonia Consiglio foi enfática ao reconhecer que a meta de cumprir todos os 17 ODS até 2030 está distante. “A agenda já era desafiadora e se tornou hercúlea após a pandemia”, afirmou. Um dos exemplos citados foi o retrocesso no ODS 5 (igualdade de gênero): antes da COVID-19, estimava-se que seriam necessários 99 anos para eliminar o gap de gênero; hoje, esse prazo ultrapassa 130 anos, segundo dados do Fórum Econômico Mundial.
Apesar das dificuldades, Sonia reforçou que a consolidação dos ODS como referência mundial representa um avanço relevante. Governos, empresas, investidores e universidades passaram a utilizá-los como frameworks para planejamento e avaliação. “Nunca foi fácil, mas sempre foi possível”, completou.
Agronegócio brasileiro como solução climática
Representando o setor de insumos agrícolas, Antônio Josino apresentou uma visão otimista sobre o papel do agro brasileiro. “Nos últimos 40 anos, o Brasil investiu em inovação para adaptar culturas às condições climáticas e aumentar a produtividade com menor impacto ambiental”, explicou.
A Mosaic, como lembrou o executivo, tem forte conexão com o ODS 2 (fome zero e agricultura sustentável) e desenvolve ações integradas em toda a cadeia: da extração de fosfato e potássio à aplicação no campo. “E a gente vê hoje, dentro das práticas agrícolas que são tidas como práticas sustentáveis, como o plantio direto e o uso de bioinsumos, que o Brasil já sai na frente de outros países agrícolas”, destacou.
O executivo mencionou também o projeto de capacitação de fornecedores, realizado em parceria com o Instituto Ethos. A iniciativa já envolve mais de 50 fornecedores — responsáveis por 70% do volume de compras da Mosaic — e promove mais de 250 práticas sustentáveis por ano em temas como gestão de resíduos, governança ambiental e projetos sociais. Além disso, a empresa desenvolveu um programa de reaproveitamento de subprodutos industriais que destina cerca de 10 milhões de toneladas de resíduos para uso agrícola e industrial, ampliando sua atuação em economia circular e reduzindo significativamente a destinação de resíduos a aterros.
A transição de compliance para estratégia de negócio
Uma das contribuições mais significativas do painel foi a constatação de que a agenda ambiental começa a ser vista além do compliance. “Empresas mais maduras entenderam que sustentabilidade é valor estratégico e diferencial competitivo”, afirmou Sonia Consiglio.
A especialista explicou que o avanço nas práticas de sustentabilidade ocorre por estágios: do cumprimento mínimo de normas e regulações (conhecido como compliance), passa-se à gestão proativa de riscos e, por fim, à integração da sustentabilidade na estratégia corporativa. Essa maturidade se reflete no aumento da emissão de títulos verdes, na atração de investimentos e na abertura de novos mercados.
O desafio, segundo ela, é ampliar essa consciência para os conselhos administrativos e áreas centrais das empresas. “Só entra na agenda do CEO e do CFO aquilo que tem valor para o negócio. E sustentabilidade tem, especialmente em um país com os ativos ambientais que o Brasil possui”, reforçou.
JBS e o desafio da regularização ambiental rural
Liège Vergili destacou os esforços da JBS para promover sustentabilidade em sua cadeia de valor. A empresa mantém mais de 20 escritórios verdes em estados estratégicos, que oferecem suporte técnico e jurídico para que produtores rurais regularizem seus cadastros ambientais.
“Nosso trabalho é contínuo. Temos metas claras até 2030 e 2040, com foco nos escopos 1, 2 e 3 de emissores. Mas sabemos que não basta agir sozinhos. Precisamos de uma articulação coletiva para enfrentar um desafio que atinge milhões de propriedades no país”, afirmou.
A executiva chamou atenção para o cenário regulatório internacional, em especial a nova legislação da União Europeia que exige “desmatamento zero” para produtos importados. “Embora possível de ser cumprida pelas empresas, essa regra ignora o Código Florestal Brasileiro e cria barreiras comerciais travestidas de critérios ambientais”, afirmou. Para Liège, o Brasil precisa ocupar espaços de diálogo e se posicionar proativamente, explicando suas práticas e exigências legais.
O que o Brasil pode ensinar ao mundo?
Na rodada final, os painelistas responderam à pergunta “O que o Brasil tem a ensinar em sustentabilidade ambiental?”, enviada pela audiência. Liège destacou tecnologias como a integração lavoura-pecuária-floresta, que possibilita até três safras na mesma área com manutenção da fertilidade do solo e eficiência no uso de recursos. “Temos práticas modernas que, na verdade, vêm de saberes ancestrais. Sustentabilidade é eficiência”, resumiu.
Josino apontou como diferencial o engajamento do setor corporativo brasileiro. “O Brasil tem uma cultura de articulação em redes multissetoriais, com adesão forte a compromissos globais como Pacto Global, CDP e GRI. Além disso, temos uma matriz energética limpa e práticas de economia circular na indústria que merecem destaque internacional”, comentou.
Sonia completou lembrando o papel histórico do país em fóruns ambientais. “Fomos sede da Eco-92 e da Rio+20, onde nasceram os ODS. Temos lugar de fala. Precisamos manter esse protagonismo com articulação, cooperação e preparo para receber o mundo na COP30”, afirmou.
Conclusão: uma agenda de oportunidade para o Brasil
O painel consolidou a percepção de que a sustentabilidade ambiental deve ser tratada como agenda de negócio e posicionamento estratégico internacional. O Brasil, com sua biodiversidade, matriz energética renovável e práticas agrícolas regenerativas, tem ativos concretos para liderar soluções climáticas.
No entanto, para transformar esses ativos em vantagem competitiva, será necessário articulação institucional, segurança regulatória, fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis e investimentos em tecnologia. A COP30 representa uma oportunidade simbólica e prática de reposicionar o país no centro da discussão global sobre clima, desenvolvimento e prosperidade.
Para entender ainda mais o estágio atual da sustentabilidade nas empresas brasileiras, a Amcham Brasil lançou o “Panorama de Sustentabilidade Corporativa 2024”. Acesse o estudo completo e descubra como posicionar sua empresa à frente dessa transformação.
Fonte: Câmara Americana de Comércio
https://www.sintese.com/noticia_integra_new.asp?id=541509
